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ANO SANTO JUBILAR - 2025 | PEREGRINOS DE ESPERANÇA

Encíclica Papal "Spiritus Veritatis" | Sobre as novas comunidades, dons e carismas

ENCÍCLICA PAPAL
"SPIRITUS VERITATIS"
DE SUA SANTIDADE O 
PAPA JOÃO PAULO I
SOBRE AS NOVAS COMUNIDADES
DONS, E OS CARISMAS DO ESPÍRITO 
  
  
IOANNES PAVLVSEPISCOPVS
SERVVS SERVORVM DEI

APERPETVAM REI MEMORIAM

Aos estimados irmãos bispos, presbíteros, diáconos e leigos, e a todos os que lerem estas letras, saudação e benção apostólica.

1. O Espírito da Verdade, prometido por Cristo e derramado em Pentecostes, permanece na Igreja como princípio vital de sua unidade e santidade. Ele é o mestre interior que guia cada fiel à plena verdade (cf. Jo 16,13), e é o sopro que renova a face da terra (cf. Sl 104,30). Desde o início, a Igreja vive deste mesmo Espírito, que a fortalece diante das perseguições e a ilumina diante das dúvidas. O mesmo Espírito que falou pelos profetas conduz agora o Povo de Deus ao longo da história. Ele é a força secreta da fidelidade, a chama da santidade e a raiz da missão.

2. Em cada tempo, o Espírito Santo se manifesta de modo particular, suscitando santos, profetas e carismáticos para responder às necessidades concretas da Igreja. Hoje, num mundo marcado pela fragmentação cultural, pela sede de sentido e pelo enfraquecimento da fé, o Espírito suscita movimentos e novas comunidades. Elas são sementes de esperança, nascidas para renovar a vida cristã e oferecer testemunho de fraternidade em uma sociedade muitas vezes dominada pelo individualismo. Esses grupos, formados por leigos, consagrados e sacerdotes, tornam-se laboratórios de fé e sinais da presença ativa do Espírito.

3. O Concílio Vaticano II nos recorda que “o Espírito Santo habita na Igreja e nos corações dos fiéis como num templo” (Lumen Gentium, 4). Esta presença não é passiva, mas dinâmica: o Espírito desperta dons, inspira ministérios, fortalece o testemunho e conduz cada cristão à santidade. Quando o Espírito age, a fé não permanece estagnada, mas se torna viva, criativa e transformadora. Ele distribui dons diversos, mas todos voltados ao mesmo bem comum (cf. 1Cor 12,7). Assim, cada fiel participa da edificação da Igreja, tornando-se corresponsável por sua missão.

4. Não é possível compreender a vida da Igreja sem a ação do Espírito Santo. Como afirmou São Paulo VI, “a evangelização nunca será possível sem a ação do Espírito” (Evangelii Nuntiandi, 75). É Ele quem prepara os corações para ouvir a Palavra, quem desperta a fé, quem abre horizontes novos de missão. Quando a Igreja tenta evangelizar com suas próprias forças, cai no vazio do proselitismo estéril. Quando, porém, confia ao Espírito o protagonismo, sua pregação se torna fecunda, porque é Deus mesmo quem age através dos frágeis instrumentos humanos.

5. As novas comunidades são expressão visível desse protagonismo divino. Nascem não de cálculos humanos, mas de inspirações espirituais. São o testemunho de que Deus continua a escrever a história da salvação com letras vivas, gravadas no coração dos seus filhos. Em seus inícios, muitas vezes marcados por pobreza e incompreensão, resplandece a autenticidade evangélica. O Espírito escolhe instrumentos frágeis para manifestar sua força (cf. 2Cor 12,9), e assim recorda à Igreja que não é a organização, mas a docilidade ao Espírito que garante a fecundidade apostólica.

6. O Papa João Paulo I, mesmo em seu breve pontificado, insistiu na simplicidade e na docilidade como atitudes fundamentais para acolher o Espírito. A verdadeira grandeza da Igreja não está em estruturas poderosas, mas na humildade de corações que se deixam conduzir. Como o vento que move as águas, o Espírito guia suavemente, mas com firmeza. João Paulo I testemunhou que não é preciso muito tempo para deixar uma marca duradoura: basta deixar-se moldar pelo Espírito. Sua vida lembra que a santidade começa com a confiança total em Deus e com a abertura humilde à sua graça.

7. São João Paulo II, por sua vez, foi um grande defensor dos movimentos e novas comunidades, reconhecendo-os como fruto da ação do Espírito para o nosso tempo. Em 1998, na histórica Vigília de Pentecostes, afirmou que os movimentos são “um sinal da liberdade do Espírito”. De fato, eles revelam que a Igreja não é obra apenas humana, mas um corpo vivo, suscitado e sustentado pelo Espírito Santo. Ele quis mostrar ao mundo que a evangelização do terceiro milênio não seria possível sem a presença e a colaboração dessas novas realidades eclesiais.

8. Os carismas, embora diversos, têm uma mesma origem: o Espírito Santo. Eles não são meras habilidades humanas, mas dons sobrenaturais que edificam o Corpo de Cristo. Uns são chamados à pregação, outros ao serviço dos pobres, alguns à música, outros ao ensino, todos a um testemunho de caridade. A diversidade não deve gerar divisão, mas comunhão. Como afirma São Paulo: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1Cor 12,4). Cada carisma é como uma nota na sinfonia da Igreja, que ressoa em harmonia quando todos permanecem unidos.

9. Entretanto, a multiplicidade de carismas exige discernimento. O Espírito sopra livremente, mas a Igreja, sob a guia dos pastores, tem a missão de acolher, purificar e orientar os dons. O discernimento impede que se confunda inspiração divina com mera emoção humana. Quando inseridos na obediência eclesial, os carismas tornam-se fonte de renovação eclesial e missionária. Quando isolados ou vividos com soberba, tornam-se estéreis. O Espírito não divide, mas une; não confunde, mas ilumina; não cria rebeldes, mas discípulos fiéis.

10. O Papa Bento XVI recordou que “o Espírito Santo é também aquele que dá os carismas e os distribui para o bem da Igreja, enriquecendo-a com novas formas de vida e de apostolado” (Deus Caritas Est, 24). De fato, não há tempo em que o Espírito não tenha suscitado novidades na Igreja. A vida monástica, as ordens mendicantes, as congregações missionárias e agora as novas comunidades: todas são expressões da mesma criatividade divina, que nunca se repete, mas sempre renova. Cada época recebe os dons necessários para enfrentar os desafios que lhe são próprios.

11. Hoje, mais do que nunca, precisamos de cristãos que se deixem guiar pelo Espírito. O mundo exige testemunhas autênticas, mais do que oradores eloquentes. A nova evangelização só será fecunda se for conduzida por homens e mulheres de oração, cheios do Espírito. A Igreja não pode temer o novo, mas deve discerni-lo e acolhê-lo, lembrando que o Espírito sopra onde quer (cf. Jo 3,8). Se quisermos responder aos desafios atuais — a indiferença religiosa, a fragmentação familiar, a injustiça social — precisamos abrir espaço para que o Espírito conduza a missão.

12. As novas comunidades mostram que a vida cristã é possível em sua radicalidade, mesmo nos tempos atuais. Nelas, famílias e jovens vivem a comunhão de bens, a oração constante, o serviço missionário e a formação integral. Testemunham que o Evangelho não é apenas ideal distante, mas caminho concreto. Ao mesmo tempo, recordam que a santidade não é privilégio de alguns, mas chamado universal. Assim se cumpre o que o Concílio Vaticano II ensinou: todos, sem exceção, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade (Lumen Gentium, 40).

13. A unidade é o selo da autenticidade dos carismas. A diversidade, quando enraizada na comunhão, torna-se fonte de beleza e riqueza. Mas quando se distancia da Igreja, gera divisão e esterilidade. Por isso, as novas comunidades devem sempre permanecer unidas aos pastores, pois só assim se mantêm na plena catolicidade. O Espírito Santo, que é Espírito de comunhão, não age fora da unidade. A obediência eclesial não sufoca os carismas, mas os confirma e os torna fecundos. Onde há comunhão, aí o Espírito age com liberdade e força transformadora.

14. A nova evangelização é o grande campo onde os carismas devem florescer. O Espírito não dá dons para serem guardados, mas para serem partilhados. Os carismas são para a missão, não para o orgulho. A Igreja do nosso tempo precisa de comunidades que não se contentem com uma fé privada, mas que testemunhem publicamente a alegria de crer. A missão é o fruto natural do encontro com Cristo vivo. Quem experimenta o fogo do Espírito não pode guardá-lo para si, mas deve levá-lo ao mundo, como luz que não se esconde, mas brilha para todos.

15. Invocamos, portanto, o Espírito da Verdade — Spiritus Veritatis — para que continue a renovar a Igreja com seus dons multiformes. Que Ele inspire os pastores no discernimento e os fiéis na docilidade. Que fortaleça os que desanimam, console os que sofrem e anime os que testemunham. Que não falte à Igreja este sopro de vida que torna tudo novo. Em cada geração, o Espírito escreve uma página inédita da história da salvação. Hoje, Ele quer escrever também através de nós, de nossas comunidades, de nossas famílias e de nossa obediência confiante.

16. Concluímos esta reflexão com as palavras de São Paulo VI: “O Espírito Santo é o agente principal da evangelização” (Evangelii Nuntiandi, 75). Repetimos com Bento XVI: “Veni, Sancte Spiritus! Veni, Spiritus Veritatis!”. E pedimos, com o coração unido a toda a Igreja: que o Espírito Santo suscite sempre novos santos, novos missionários, novas comunidades, para que a Igreja continue sendo sinal de esperança no mundo. Que Maria, Esposa do Espírito, interceda por nós, para que sejamos dóceis à sua ação. A Ele toda honra e glória, agora e para sempre.


 Ioannes Paulus Pp. I
Pontifex Maximus

Ego svbscriptvm,
 Petrus Schneider Cardinalis PAROLIN
Cardinalis-Episcopus Ostiensis et Albanensis

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Referências

1. Bíblicas: 
Jo 15,26; At 2,3-4; Jo 16,13; Sl 104,30; 1Cor 12,4-7; 2Cor 12,9; Jo 3,8.

2. Magisteriais:
Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, 4; 40.
São Paulo VI, Evangelii Nuntiandi, 75.
São João Paulo II, Redemptoris Missio, 72; Christifideles Laici, 29.
São João Paulo II, Vigília de Pentecostes com os Movimentos Eclesiais, 1998.
Beato João Paulo I, Catequeses (1978).
Papa Bento XVI, Deus Caritas Est, 24; Homilia de Pentecostes, 2006.
Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 14.

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